Álcool e Juventude

Originalmente postado em 17 de Agosto de 2010

Na seqüência de nossos artigos, não há como separar o uso abusivo e pesado do álcool pelos jovens e alguns fatos que publicamos no post anterior.

Os dados estatísticos não são uniformes em todas as nações, pela crônica falta de pesquisas padronizadas e homogêneas em todos os países. Mas o que há disponível não deixa muita margem à interpretações diferentes ou a um senso comum no assunto.
Existem muitas variações internacionais e regionais sobre o consumo de álcool entre estudantes e jovens.

Comecemos pelos índices de abstinência da substância entre as pessoas dessa faixa etária. Ela pode ser relativamente variável como 98,6% em Comoros (um arquipélago vulcânico, entre a costa leste da África e o noroeste de Madagascar, com pouco menos de 1 milhão de pessoas, de origem multicultural e grande pobreza) ou extremamente baixa , 6,7%, em Latvia (uma pequena república parlamentarista báltica, espremida entre a Estônia e Lituânia e pela pobreza – 3º. país mais pobre da União Européia).

De outro lado, outro grande contraste: a porcentagem de jovens dados a episódios de grandes bebedeiras (heavy episodic drinkers) é de apenas 0,2% do jovens no Líbano e Malásia e sobe a espantosos 20,1% dos jovens na República Tcheca.

Infelizmente parece que a cultura do beber excessivamente entre os jovens vem se disseminando pelo mundo todo. Recordes lastimáveis são vistos em Israel e nas Filipinas. E, mais preocupante, com a dianteira desse comportamento sendo verificada no sexo feminino, como se tem verificado na Austrália e Lituânia

Nesses lugares esse tipo de comportamento é verificado fortemente em meninas com idades entre 14 e 19 anos na Austrália e na Lituânia em meninas entre os 15 e 16 anos (não, você não leu e nem escrevi errado – entre 15 e 16 anos! Fonte: World Health Organization – WHO global status report on alcohol 2004. Geneve. ).
Quando pareamos os dados de efeitos e causas as coisas também apresentam grande variações, algumas bastante lastimáveis.
Os índices de mortalidade em razão de homicídios entre pessoas na faixa dos 10 aos 29 anos chegam a 84,4 por 100.000 na Colômbia (com uma abissal desproporção de 156,3 por 100.000 no sexo masculino e 11,9 para o feminino) e menos que 1 por 100.000 (igual em ambos os sexos) no Japão e França.

Mundialmente o álcool tem uma estimativa de responsabilidade de 26% dos anos de vida perdidos em função de homicídios. E nesse quesito os países em desenvolvimento apresentam taxas menores (18% no sexo masculino e 12% no sexo feminino) em função de outros fatores dividindo a responsabilidade por essa tragédia silenciosa de suas juventudes. Eles compõem juntos as altas taxas de mortalidade de jovens, incluindo-se outras causas como doenças preveníveis e a fome.

Nos países desenvolvidos, livres dessas outras causas, a combinação álcool x homicídios sobe a 41% nos homens e 32% na mulheres.

Esses dados constituem apenas a ponta mais negra de um grande iceberg social, com uma bomba relógio em seu interior.

Quando consideramos as ocorrências não fatais relacionadas com toda essa situação, as estatísticas ficam mais nebulosas e difíceis em sua disponibilidade. Colecionamos aqui estudos menores, mais não menos significativos:

– Nos Estados Unidos, numa amostra de certa comunidade, envolvendo pessoas entre 18 e 30 anos, encontrou-se 25% de homens e 12% de mulheres que experimentaram algum episódio de violência ou agressão, dentro ou ao redor de bares regulares e legalizados, durante o ano prévio à pesquisa.

– Na Inglaterra e País de Gales, pessoas entre 18 e 24 anos, que referiram ficar pesadamente bêbedos pelo menos uma vez ao mês, tiveram uma chance duas vezes maior de se envolver em brigas de bar. Nas mulheres isso subiu a 4 vezes…

– Na Finlândia, 45% de todos os incidentes violentos envolvendo pessoas entre 12 e 18 anos estão relacionados com a bebida, tanto envolvendo o perpetrador ou a vítima.

As estatísticas se sucedem e não melhoram.

Outro fenômeno negativo e em expansão no mundo todo é a violência de gangs.

Nesses fenômenos sociais envolvendo predominantemente pessoas jovens, o álcool desempenha um papel central, seja para a “iniciação” nesses grupos, seja para aumentar a confiança antes dos seus confrontos entre grupos rivais.

O fenômeno toma proporções preocupantes, tanto em países desenvolvidos, quanto em países em desenvolvimento.

Em Bremen na Alemanha, metade das ocorrências violentas atendidas pela Polícia tem origem em gangs. No Caribe os índices de violência desse tipo e a estreita ligação com o álcool atingem níveis insuportáveis.

Como resolver esse problema:

A receita parece repetitiva mas passa por uma atitude política e social.

Leis que regulem o acesso ao álcool e que sejam fiscalizadas: idade mínima, fiscalização de venda e consumo, fiscalização de álcool X trânsito. Restrições legais aos locais aptos à venda de bebidas (o que já é feito no exterior, e não no Brasil, onde, por exemplo, qualquer lugar pode vender bebidas, sem nenhum controle ou licença especial, etc.).

A sociedade por sua vez deve funcionar como um tecido unido.

Experiências muito simples de envolvimento de vários setores, senão todos, numa ação coordenada mostram resultados surpreendentes (veja o leitor internauta a experiência do programa DEZEPAZ de Cali na Colômbia ou o The Queensland Safety Action Projetcs na Austrália).

Por fim a Educação e a socialização do jovem (esporte, atividades culturais, atividades sociais).

Educação e socialização devem caminhar de mãos dadas. Só a Educação de boa qualidade não adianta, ela “sobra” nos países escandinavos, por exemplo, onde os adolescentes morrem de tédio e solidão, por falta de socialização e famílias mais presentes. Literalmente se entregam a bebida e outras coisas, além de ostentar um cifra impressionante de suicídios.

É de se pensar, sobretudo para aqueles que são pais.

Sobre o Autor
Dr. Homero Guidi
Dr. Homero Guidi